Crise
A queda do último moicano do DEM
Demóstenes Torres, atingido por denúncias de
relação com chefe de quadrilha, era a principal aposta do partido para
retomar influência no plano nacional. Era
Gabriel Castro

Com Demóstenes sangrando, torna-se mais evidente a falta de quadros de peso no DEM para reerguer o partido
(AE)
A crise envolvendo o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) - e suas agora
investigadas relações com Carlinhos Cachoeira, chefe da máfia de
caça-níqueis em Goiás - atinge em cheio um já cambaleante Democratas. Um
dos principais partidos do Brasil (e o único a defender de forma
enfática o ideário liberal), o DEM tem sofrido uma agonia dolorosa nos
últimos anos. O processo parece ter se inciado com a morte de Antonio
Carlos Magalhães, patrono da sigla, em julho de 2007. O partido acabara
de mudar de nome, deixando para trás o antigo PFL. Já havia sinais de
perda de influência. De lá para cá, a legenda entrou em uma decadência
assustadoramente rápida.
A tentativa de transição para as gerações mais novas, na figura do
então presidente Rodrigo Maia, mostrou-se malsucedida. Isso, somado à
alta popularidade do regime lulista e à revelação dos pecados cometidos
por figuras de primeira grandeza na legenda, gerou um cenário de
esvaziamento: o partido foi perdendo, uma a uma, suas figuras mais
promissoras.
Em 2009, a operação Caixa de Pandora desmontou um amplo esquema de
corrupção comandado pelo então governador José Roberto Arruda e seu
vice, Paulo Octávio, no governo do Distrito Federal. Até que os
desmandos viessem à tona, a dupla vinha transformando a gestão local em
uma vitrine para o partido. Arruda e Octávio, favoritos à reeleição no
ano seguinte, eram jovens o suficiente para permitir sonhos maiores à
cúpula do DEM. Acabaram varridos do mapa.
Restava, então, o prefeito paulistano Gilberto Kassab. A administração
da maior cidade do país se tornou o principal posto do DEM no Executivo,
já que Arruda era o único governador da legenda entre 2007 e 2010. Mas,
no ano passado, a falta de habilidade de Rodrigo Maia e a ambição de
Kassab causaram um racha que motivou o nascimento do PSD. O novo partido
levou um bom pedaço do DEM. Entre outros nomes, o novo partido tirou do
ex-PFL outras três figuras que poderiam significar uma renovação no
partido: a senadora Kátia Abreu, o governador de Santa Catarina,
Raimundo Colombo, e o ex-deputado Indio da Costa, vice de José Serra na
última eleição presidencial.
Debandada - A influente família Bornhausen acompanhou a
debandada de Kassab. Outros nomes tradicionais do partido, como
Heráclito Fortes e Marco Maciel, haviam ficado pelo caminho graças a
derrotas eleitorais em 2010. Neste cenário, Demóstenes Torres reinava
como a mais promissora figura do partido. Articulado, o ex-promotor de
Justiça se mostrava implacável ao cobrar o governo diante de deslizes
éticos. A projeção que o parlamentar acumulou levou alguns colegas a
defender o nome dele como candidato do partido à Presidência da
República. A ideia era começar em breve a percorrer o Brasil para, aos
poucos, deixar o senador conhecido do eleitorado nacional.
Mas isso é passado. O novo Demóstenes, recluso, foge da imprensa e pede
ao antigo rival Renan Calheiros ajuda para não ser cassado. Mesmo se
escapar, o parlamentar não conseguirá se recuperar dos danos sofridos
pela proximidade com Carlinhos Cachoeira. Com Demóstenes sangrando,
torna-se mais evidente a falta de quadros de peso no DEM para reerguer o
partido em um futuro próximo.
Além de Demóstenes e do sobrevivente José Agripino Maia (que acumula a
função de presidente do partido e líder da bancada no Senado), o
reduzido time do partido no Senado é composto por dois suplentes (Maria
do Carmo Alves e Clóvis Fecury) e um parlamentar de visibilidade
limitada e idade avançada, Jayme Campos. O único governo comandado pelo
partido é o do Rio Grande do Norte. E a governadora Rosalba Ciarlini não
empolga os correligionários.
Na Câmara, nomes como ACM Neto e Ronaldo Caiado dispõem de razoável
influência. Mas, por ora, falta rodagem a um e a outro para permitir
sonhos mais altos aos democratas.
AE
Silêncio: Demóstenes tem evitado circular pelo Congresso
Calvário - O senador Demóstenes Torres foi atingido
pela operação Monte Carlo, da Polícia Federal. As autoridades
desmontaram uma extensa rede criminosa comandada por Carlinhos
Cachoeira, empresário e controlador da máfia dos caça-níqueis no estado
de Goiás. Foram presos policiais militares, civis e federais que tinham
participação no esquema. Mas a maior surpresa veio de conversas entre
Demóstenes Torres e Cachoeira, interceptadas pelos policiais. Além de
ter recebido do criminoso um presente de casamento no valor de 30 000
dólares, o senador foi flagrado pedindo auxílio financeiro e negociando o
uso de um jatinho de Cachoeira.
Novas conversas de Cachoeira reveladas pelo
Jornal Nacional
desta quinta-feira tornaram a situação do senador ainda mais complicada.
O chefe da quadrilha aparece negociando recursos com comparsas e, em
vários trechos, cita o nome do parlamentar. Carlinhos Cachoeira chega a
falar em "um milhão do Demóstenes". Horas antes, o PSOL entregou ao
Conselho de Ética do Senado um pedido de abertura de processo por quebra
de decoro parlamentar. E o procurador-geral da República, Roberto
Gurgel, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de inquérito
contra o parlamentar.
Esperava-se que Demóstenes, sempre ágil para cobrar esclarecimentos do
governo, se dispussesse a responder às denúncias publicamente. Em vez
disso, tem evitado a imprensa e, desde que as denúncias se agravaram, só
se comunicou por uma carta evasiva enviada aos colegas.